Nível dos reservatórios hídricos no subsistema Sudeste e Centro-Oeste atinge quase o triplo do registrado em 2021 com o avanço da geração solar.
Os reservatórios do Sudeste fecham outubro em 54,9% de sua capacidade total ao encerrar o décimo mês de 2026, conforme dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). As represas instaladas nas regiões Sudeste e Centro-Oeste respondem por cerca de 70% de toda a água armazenada no país destinada à geração hidroelétrica. O índice supera com margem ampla o nível observado em outubro de 2021, quando o volume atingiu a marca de 19% no ápice da crise hídrica.
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) confirmou a manutenção da bandeira verde para a cobrança das tarifas no mês de novembro. As estimativas atualizadas pelo ONS indicam que o nível médio de armazenamento nessas bacias deve alcançar 59,8% até o término de novembro. A recuperação do sistema elétrico nacional reduz os riscos de escassez e elimina a necessidade de acionamento emergencial de usinas termelétricas de custo elevado.
Impacto da energia solar no sistema elétrico
A expansão da geração distribuída fotovoltaica impulsionou a preservação dos volumes hídricos armazenados nas principais represas do país. Segundo o Canal Solar, dados divulgados pela Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), o Brasil acumula atualmente 77,6 GW de potência solar instalada. Em comparação com o ano de 2022, o setor contabilizava uma capacidade total de apenas 17 GW distribuídos pelo território nacional.
Desse total acumulado na matriz, a modalidade de geração distribuída responde por 50,5 GW de capacidade operacional. Esse segmento abrange instalações efetuadas em telhados de residências, estabelecimentos comerciais, plantas industriais e propriedades rurais. O engenheiro eletricista Anderson Oliveira, CEO e cofundador da EcoPower Energia Solar, destaca a mudança estrutural ocorrida no perfil da oferta de eletricidade no país.
“Choveu bem neste ano, mas a chuva não explica tudo. O brasileiro não passou a consumir menos energia. O que mudou foi quem gera a energia durante o dia”, afirma Anderson Oliveira.
Nesse sentido, a infraestrutura privada assumiu a responsabilidade por suprir a demanda da rede durante os períodos de maior incidência de radiação solar. Os investimentos individuais em painéis fotovoltaicos descentralizaram a matriz de suprimento elétrico e reduziram a necessidade imediata de expansão de grandes linhas de transmissão pelo governo federal.
Funcionamento técnico da preservação hídrica
O mecanismo técnico de preservação dos recursos hídricos opera por meio da alternância entre a fonte solar e a usina hidrelétrica. Assim, no intervalo compreendido entre 9h e 15h, a produção das placas fotovoltaicas absorve grande parcela da carga exigida pelos consumidores do país.
Paralelamente, o ONS reduz o volume de água repassado pelas turbinas das geradoras hidrelétricas ao longo desse período diurno. A água não utilizada permanece retida nas albufeiras das usinas para ser acionada prioritariamente no início da noite.
“O sol cuida do dia e a água guardada (hidroelétricas) cuida da noite. Na prática, o sol virou a nova caixa d’água do Brasil”, explica o executivo da EcoPower.

“E quem construiu isso foi a iniciativa privada, cada dono investindo na própria usina, de forma descentralizada, sem exigir novas linhas de transmissão”, complementa Anderson.
Excesso de oferta e corte de geração pelo ONS
Logo, o crescimento acelerado da capacidade fotovoltaica gerou um cenário de sobreoferta temporária de eletricidade no sistema elétrico brasileiro. Assim, entre os meses de janeiro e setembro de 2026, o ONS realizou o corte de 18,67 TWh de energia solar e eólica. O volume descartado representa um crescimento de 52,7% em relação ao montante cortado no mesmo intervalo do ano de 2025.
Essas restrições operacionais concentram-se no período compreendido entre 7h e 15h, atingindo os picos de limitação aos domingos. Ademais, a limitação decorre da incapacidade momentânea da rede de transmissão em absorver todo o volume produzido no horário de maior incidência solar.
“O problema deixou de ser gerar. Agora é guardar e consumir no lugar certo, na hora certa”, afirma Anderson Oliveira sobre o novo desafio do setor energético.
Por conta desse cenário, soluções tecnológicas como sistemas zero grid, baterias de armazenamento (BESS) e redes isoladas (off grid) tornaram-se padrão nos projetos industriais e agrícolas. Assim, a EcoPower opera uma estrutura zero grid de 6 MW no agronegócio, construída em parceria com a WEG. O sistema utiliza a geração solar direta para a irrigação diurna e recorre a baterias para suprir a demanda no período noturno.
Eletrificação do agronegócio e dados corporativos
Em contrapartida ao descarte de energia na rede pública, consumidores do setor produtivo passaram a promover a eletrificação de seus processos internos. Empresas e produtores rurais substituem equipamentos movidos a combustível fóssil e biomassa por máquinas elétricas alimentadas por usinas próprias. A mudança atinge o uso de óleo diesel em bombas e geradores, gás em processos industriais e lenha em secadores e caldeiras.
“Para o produtor rural, o maior obstáculo nunca foi o preço da energia. Era a falta de infraestrutura. Agora não precisa mais esperar obra: gera lá, consome lá, armazena lá e resolve lá”, ressalta Anderson Oliveira.
“E tudo isso vem de uma fonte gratuita, que nasce todo dia, não acaba, não esgota e não polui. Que orgulho estar vivendo e construindo essa transformação”, conclui o executivo.
Fundada em 2013 no município de Barretos (SP), a EcoPower Energia Solar ultrapassou a marca de 1 GWp de potência instalada no país. A empresa soma atendimentos a mais de 100 mil unidades consumidoras localizadas em todos os estados brasileiros e em áreas de atuação de 40 concessionárias.
Esse volume de instalações representa cerca de 2,3% de todos os sistemas de geração distribuída conectados no território nacional. Os dados da base oficial da Aneel, registrados em abril de 2026 com 4,32 milhões de sistemas, foram compilados pelo Infográfico Solfácil. A diversificação da matriz consolida a estabilidade operacional no momento em que os reservatórios do Sudeste fecham outubro em 54,9%.