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Ação de Gilmar no STF incomoda dono do Banco Master

Investigações apontam reuniões e contatos entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o gabinete do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. O magistrado, no entanto, nega irregularidades e ressalta que votou repetidamente contra os interesses financeiros do Banco Master na Corte.

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes reuniu-se com o banqueiro Daniel Vorcaro em 11 de abril de 2024, acompanhado de dois advogados do Banco Master, para tratar de uma causa bilionária. A colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, divulgou a presença de Vorcaro no gabinete, e o próprio Gilmar confirmou o encontro posteriormente.

A reunião abordou uma causa sobre créditos de indenização da União à Destilaria Alcídia por preços fixados nos anos 80 e 90. No julgamento de junho de 2025 na Segunda Turma, a ação de Gilmar no STF incomoda dono do Banco Master porque o ministro votou contra os interesses da instituição financeira, sendo voto vencido.

Paralelamente, o Estadão revelou nesta quinta-feira, 17, que Chiquinho Feitosa, ex-cunhado do magistrado, firmou contrato de assessoria com a Super Empreendimentos. A Polícia Federal aponta essa empresa como instrumento de Vorcaro para lavar dinheiro e ocultar patrimônio. Além disso, mensagens obtidas pela reportagem indicam o pagamento de R$ 500 mil à F&A Consultoria, empresa de Chiquinho.

Esses diálogos começam justamente em 11 de abril, mesma data da reunião no STF. Naquele dia, Chiquinho enviou ao banqueiro o contato de uma secretária do gabinete e encaminhou a previsão de horários do encontro. O ministro, contudo, afirma que não sabia da relação do ex-cunhado com o empresário. Chiquinho é irmão da advogada Guiomar Feitosa, que foi casada com o ministro até novembro de 2025.

O magistrado esclareceu publicamente a sua conduta institucional:

“O Ministro não teve conhecimento de qualquer tratativa entre ele e Daniel Vorcaro, não foi por ele procurado sobre os assuntos mencionados e não responde por relações privadas ou profissionais de ex-parente.”

“A audiência ocorreu em 11 de abril de 2024, às 18h, no gabinete do Ministro, no Supremo Tribunal Federal, e contou com a presença dos advogados do Banco Master. Foi realizada na sede do Tribunal, em ambiente institucional, e não em espaço privado.”

As conversas entre Chiquinho e Vorcaro mencionam outros dois casos com participação do magistrado. Um deles envolve precatórios da Usina Agroindustrial Tabu adquiridos por fundos do Banco Master. Nesse processo, Gilmar e outros ministros votaram contra os interesses da instituição.

O outro caso tratava de regras para vagas em cursos de medicina. Na época, o Master financiava uma universidade do setor. Gilmar relatou a matéria, votou pela manutenção da lei em vigor e recebeu o apoio dos pares, prejudicando indiretamente o banco. Ademais, Gilmar também se reuniu com o ex-advogado-geral da União Bruno Bianco, que defendia Vorcaro em causas de precatórios.

Na tarde desta sexta-feira, 18, Gilmar publicou no X que sempre combateu o pagamento dessas indenizações sucroalcooleiras, desde quando chefiava a Advocacia-Geral da União (AGU). Consequentemente, essa firme postura do ministro Gilmar contra pretensões do Master no Supremo contrariou os planos do grupo financeiro.

“Essa luta não é de hoje. Barrar esses pagamentos foi uma das minhas prioridades à frente da AGU, entre 2000 e 2002, e é a mesma posição que sustento no Supremo.”

O ministro divulgou nota destacando que o recebimento de advogados cumpre o art. 7º, VIII, da Lei 8.906/1994 e detalhou processos em que barrou teses do setor, como o ARE 1327995, o ARE 1312127, o ARE 1392660, o ARE 1500251 e a STP 976-ED:

“Nesse processo, julgado pela Segunda Turma em 3 de junho de 2025, o Ministro Gilmar Mendes votou contra os interesses do Banco Master. O voto foi contra o pagamento do precatório, no sentido defendido pela União. Ficou vencido, acompanhado pelo Ministro André Mendonça. Prevaleceu a posição dos Ministros Edson Fachin, Nunes Marques e Dias Toffoli, favorável à empresa.”

“Em nenhum desses processos o Ministro votou em sentido favorável aos interesses apontados pela reportagem — inclusive após a audiência mencionada.”

Por outro lado, Chiquinho Feitosa apresentou sua versão sobre os fatos ao Estadão:

“Em relação ao Bruno Bianco, desconheço que ele fosse empregado do Master. Quando o Daniel me passou o número dele, ele já era meu amigo. Ele foi AGU, é empresário e advogado de várias empresas e bancos. Uma pessoa que eu costumo conversar para trocar ideias.”

“Não sei o que conversamos a época em relação a esse assunto. No mais, o que falo na mensagem relatada é sobre a minha agenda de compromissos naquele específico dia. Mostrando que estava ocupado.”

“Tive um contrato de consultoria com a Super Empreendimentos durante um curto período. À época uma empresa idônea que atuava em diversos segmentos, e despertava interesse no mercado.”

“Sobre o referido coquetel, era um evento paralelo ao seminário do IDP, a exemplo de tantos outros. Do meu conhecimento o organizador e patrocinador era a UniBrasil e a Escola da Magistratura. O nome do Master estava figurando no convite. Eu sugeri de forma despretenciosa que retirasse o nome do banco, em virtude da própria natureza do evento.”

As mensagens reveladas pela Polícia Federal mostram intensa articulação entre o ex-cunhado do ministro Gilmar Mendes e o banqueiro Daniel Vorcaro. Contudo, o magistrado nega ter conhecimento dessas tratativas privadas e reitera que proferiu decisões contrárias às pretensões financeiras do Banco Master.


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