Lideranças do agronegócio buscam separar opções partidárias da atuação institucional para proteger os interesses econômicos e garantir diálogo com o governo.
Importantes lideranças do setor agropecuário avaliam que a forte associação a um determinado campo político trouxe um custo expressivo para a atividade nos últimos anos. Por essa razão, os produtores rurais pretendem preservar maior independência institucional em relação aos candidatos nas eleições de 2026 e nos pleitos futuros.
Os representantes do setor argumentam que o agronegócio não pode deixar de emitir posições sobre os rumos do país. No entanto, o mercado precisa evitar que visões individuais se confundam com escolhas institucionais. Afinal, a representação abrange produtores, empresários e trabalhadores com os mais diferentes perfis e preferências.
A consequência da partidarização recente foi um desgaste contínuo que ultrapassou a disputa eleitoral. Por conseguinte, a imagem política acabou se sobrepondo à imagem econômica de um setor que depende diretamente de crédito, taxa de juros, seguro rural, infraestrutura e comércio exterior.
Mudança de estratégia e histórico de tensões
Por esse motivo, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) decidiu alterar sua estratégia e não realizará encontros com candidatos à Presidência no primeiro turno. A entidade adota essa postura cautelosa após anos de episódios de forte tensão entre os produtores e o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Desde 2023, o setor enfrentou divergências públicas sobre invasões de terra, marco temporal e reajustes do Plano Safra. Em junho daquele ano, Lula afirmou abertamente que “o problema do agronegócio com seu governo era ideológico”, o que aprofundou as divergências entre o Palácio do Planalto e a bancada ruralista.
Posteriormente, em 2024, o cancelamento do leilão de importação de arroz e as discussões da Medida Provisória 1.227 intensificaram a Ruptura. Na ocasião, o presidente da CNA, João Martins, fez duras críticas e declarou expressamente: “Me recuso a falar com o presidente Lula”.
Desafios econômicos e busca por autonomia
Mais recentemente, em 2025 e 2026, novos atritos surgiram devido ao preço dos alimentos, à renegociação de dívidas rurais e às tarifas impostas pelos Estados Unidos no governo de Donald Trump. Assim, essas dificuldades comerciais exigiram ações conjuntas e demonstraram a necessidade urgente de diálogo contínuo entre os agentes do mercado e o Poder Executivo.
Agro busca independência política nas eleições de 2026 para proteger seus negócios e assegurar a interlocução contínua com qualquer governo eleito. Além disso, o setor tenta afastar o estigma eleitoral recente para priorizar pautas econômicas estratégicas e garantir segurança jurídica no campo.
Cristiane Noberto
CNN Brasil