A inflação alta e os juros elevados pressionam fortemente o orçamento doméstico atual. Hoje, os brasileiros destinam a maior parte de seus rendimentos aos itens essenciais e ao pagamento de dívidas, reservando pouco mais de R$ 20 de cada R$ 100 para o consumo livre.
Além disso, a consultoria Tendências aponta que essa sobra orçamentária atinge um dos patamares mais baixos de sua série histórica. Em maio, as famílias retiveram apenas 21,7% da renda após quitarem as despesas obrigatórias.
Por outro lado, sem o custo dos empréstimos e financiamentos, os consumidores mantêm cerca de R$ 41 para outros gastos. Nesse contexto, em maio, os cidadãos comprometeram quase 60% da renda total com alimentação, transporte, aluguel e medicamentos.
Nesse cenário, a analista Isabela Tavares explica que o choque no preço do petróleo e os conflitos internacionais intensificaram a pressão inflacionária. Consequentemente, esses fatores elevam os custos de fretes, combustíveis e bens industriais em 2026.
Da mesma forma, as variações do clima influenciam diretamente o orçamento familiar. Os especialistas preveem que o fenômeno El Niño prejudicará a produção agrícola e aumentará o preço dos alimentos. Por isso, os analistas do mercado financeiro revisaram a projeção da inflação para cima na última pesquisa Focus.
Supermercado e juros altos reduzem a renda familiar
Paralelamente, os custos de supermercado consomem uma fatia expressiva dos ganhos mensais. A empresa Dunnhumby revela que os brasileiros gastam, em média, R$ 1.073,98 por mês com compras essenciais, o que compromete metade do orçamento das famílias de menor renda.
Além disso, o economista Alexandre Bertoncello destaca que a inflação de alimentos supera a inflação geral. Em virtude disso, a população perde poder de compra rapidamente e recorre ao parcelamento no cartão de crédito, uma prática que acumula juros altos e agrava a situação financeira.
Enquanto isso, a taxa Selic elevada e o endividamento massivo travam os investimentos familiares e reduzem a intenção de consumo. Por essa razão, a FecomercioSP registra sucessivas quedas na confiança dos consumidores paulistas.
Eleições e programas sociais no debate econômico
Diante desse quadro, a fragilidade orçamentária pauta a campanha presidencial. Faltando pouco tempo para o primeiro turno, o governo prorrogou o programa Desenrola para renegociar débitos das famílias.
No entanto, a economista Anna Carolina Gouveia ressalta que essa medida gera apenas um alívio momentâneo, sem resolver o problema estrutural do endividamento no país.
Por fim, os dados do FGV Ibre mostram que apenas as classes de menor renda apresentaram uma leve recuperação na situação financeira. Todavia, a Serasa contabiliza mais de 83 milhões de inadimplentes no Brasil, confirmando que as despesas básicas e os juros elevados continuam fragilizando o tecido social.
Fonte: Luiz Guilherme Gerbelli e Renée Pereira
Estadão