Pastores manifestam apoio a indicado de Lula para STF, mas bancada religiosa integra direita bolsonarista e deve votar para rejeitar AGU
O advogado-geral da União, Jorge Messias, segue nas mãos do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), às vésperas de sabatina para vaga no STF (Supremo Tribunal Federal), marcada para esta quarta-feira (29).
Depois de passar pelo mais longo processo de indicação entre os atuais ministros da corte, ele também não conquista o aval da frente evangélica da Casa, mesmo com o apoio de pastores.
Messias precisará do endosso de ao menos 41 entre 81 senadores em votação secreta, tarefa delicada diante da resistência de Alcolumbre em apoiá-lo. Senadores dizem que o placar está indefinido e apertado, e que é preciso um gesto do chefe do Congresso Nacional para garantir a aprovação.
Alcolumbre aguarda Messias para diálogo
Como mostrou a Folha, Messias ainda espera ser recebido pessoalmente por Alcolumbre, cuja sinalização dependia de acerto na relação com o presidente Lula (PT), responsável pela escolha de Messias. A adesão do presidente do Senado viabilizaria o voto favorável de senadores ligados a ele e, portanto, garantiria a aprovação do advogado-geral.
Depois da crise da indicação, em novembro, os políticos se reaproximam lentamente, mas o congressista mantém as queixas de falta de diálogo com o petista.
O bloco formado por PL, Novo e Avante, com18 senadores, definiu voto contrário a Messias,
o que esvaziou o trunfo junto à direita o fato de ser evangélico. Dos 18 membros da frente evangélica do Senado, 7 são desses partidos.
Além deles, outros membros da frente já indicaram que votarão contra, como Cleitinho (Republicanos-MG), Alan Rick (Republicanos-AC) e Carlos Viana (PSD-MG). Damares Alves (Republicanos-DF) também deve votar contra, mas outras colegas do grupo evangélico são pró-Messias, como Eliziane Gama (PSD–MA) e Dra. Eudócia (PSDB-AL).
Já congressistas entusiastas de Messias dizem que a rejeição é improvável, dado que o governo trabalha pela aprovação e tem peso político, especialmente em ano eleitoral. O Palácio do Planalto tem negociado emendas e cargos em agências reguladoras.
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Eles dizem ainda contar com o bom senso de Alcolumbre, contemplado com uma série de cargos no Executivo. Há quem lembre ainda que André Mendonça foi aprovado apesar da objeção do atual presidente do Senado.
Lideranças evangélicas dizem que a resistência no segmento em relação a Messias vem mais de religiosos com mandato. Divididos entre os mais ou menos entusiastas, eles afirmam ser positivo que mais um evangélico chegue ao tribunal, majoritariamente católico, e citam a trajetória religiosa dele.
Malafaia critica mas não se contra ponha à indicação
Aliado de Jair Bolsonaro (PL) e sem mandato, o pastor Silas Malafaia, presidente da ADVEC (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), é um dos que mais criticam Messias, embora também não se contra ponha à indicação. Ele chama o advogado-geral da União de “esquerdopata gospel” e afirma ser “diametralmente oposto” a ele, mas diz que seria uma incoerência ser contrário à nomeação.
“Se é prerrogativa de Bolsonaro indicar Kassio [Nunes Marques] e André Mendonça, é prerrogativa de Lula [indicar Messias]. Isso é um direito, é uma prerrogativa
do presidente indicar.”
O apóstolo Estevam Hernandes, fundador da Igreja Renascer em Cristo e presidente internacional da Marcha para Jesus no Brasil, diz achar excelente a indicação. “Dentro do quadro atual, creio que é a pessoa que tem nossos valores. Creio que realmente é uma pessoa cristã e temente a Deus. Existem controvérsias, mas pessoalmente acho o melhor.”
Mesmo na bancada evangélica há defensores
O apóstolo César Augusto, fundador da Igreja Fonte da Vida, que, segundo ele, tem mais de 700 templos no Brasil, diz que Messias tem duas posições fundamentais que o credenciam como representante dos evangélicos. A primeira, afirma, é ter “Jesus Cristo como único salvador e como senhor da vida dele”. A segunda é crer na “Bíblia como a palavra de Deus”, diz.
O bispo Robson Rodovalho elogia Messias, que diz conhecer pessoalmente. “Ele é um excelente advogado, competente. Tem uma história de muito estudo, dedicação e trabalho. É uma pessoa de caráter e, acima de tudo, um cristão muito comprometido”, afirma o fundador da Igreja Sara Nossa Terra. Assim, segundo ele, tem mais de 1.200 igrejas e núcleos no Brasil e no exterior.
Apesar da mobilização religiosa, senadores evangélicos contrários a Messias afirmam, sobre serva, que a religião dele por si só não foi capaz de angariar votos.
Na avaliação desses senadores, Messias tem posições mais alinhadas ao PT e a Lula do que aos evangélicos. Eles mencionam com o exemplo um parecer da AGU que opinou pela inconstitucionalidade de uma resolução do CFM (Conselho Federal de Medicina) que proibia o aborto legal em fetos com mais de 22 semanas.
Por Carolina Linhares e Ana Grabriela Oliveira Lima
Folha de São Paulo