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Centrão articula manutenção de Hugo Motta na Câmara

Partidos de centro buscam apoio da esquerda para reeleger o atual presidente da Casa, contornar veto do PL e assegurar a autonomia das votações no Congresso Nacional.

Partidos de centro e centro-direita intensificaram as negociações para garantir o apoio de siglas de esquerda e assegurar a reeleição do deputado federal Hugo Motta (Republicanos-PB) à presidência da Câmara. A movimentação ocorre após o PL vetar o nome de Motta para o comando da Casa a partir do próximo ano. Com a articulação, os dirigentes partidários pretendem criar um bloco capaz de assegurar a independência do Poder Legislativo frente ao Poder Executivo. As bancadas priorizam essa estratégia de moderação orçamentária e legislativa principalmente em caso de vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial.

Nesse sentido, a urgência das legendas do Centrão aumentou após o resultado das urnas no primeiro turno das eleições. O PL conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados e atingiu a maior bancada eleita por um único partido desde a redemocratização. Em contrapartida, as siglas de centro que integram o núcleo tradicional do Congresso sofreram redução expressiva. MDB, PSD e outras legendas moderadas perderam quase 30 assentos no conjunto, encolhendo de 284 para 257 parlamentares.

Apoio do PSD viabiliza bloco de 271 deputados

Paralelamente, o movimento decisivo para consolidar a aliança ocorreu quando o líder do PSD na Câmara, deputado reeleito Antonio Brito (BA), retirou sua pré-candidatura ao cargo. A decisão liberou a legenda comandada por Gilberto Kassab para compor a base de sustentação do atual presidente. Em reunião com a bancada do PSD, Motta comprometeu-se a pautar temas de interesse do partido, incluindo discussões sobre ajustes no sistema eleitoral vigente.

Com o alinhamento do PSD assegurado, representantes de sete forças políticas reuniram-se para formalizar a manutenção da coalizão partidária. O bloco reúne União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB, Podemos e a federação PSDB-Cidadania, somando 271 deputados federais. Em nota conjunta divulgada após o encontro, os presidentes e líderes manifestaram apoio oficial à recondução de Motta ao comando dos trabalhos legislativos.

“O que a gente pretende é fechar apoio do Centrão ao Hugo e trazer o PT”, afirmou reservadamente um dirigente partidário envolvido nas conversas. Segundo líderes do grupo, o objetivo central consiste em evitar que a pauta do País fique sob controle exclusivo das alas mais radicalizadas da política nacional.

PL impõe veto a Motta e PT estuda adesão

Em contrapartida, interlocutores da campanha de Flávio Bolsonaro confirmaram que o candidato do PL comunicou o veto a Motta diretamente à direção do Republicanos. A resistência dos bolsonaristas deve-se ao fato de o parlamentar paraibano ter apoiado a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e atuado em alinhamento com o Palácio do Planalto. O PL indicou que aceitaria apoiar outro nome do Republicanos, como o deputado Marcos Pereira (SP). Contudo, a cúpula do Centrão mantém Motta como o candidato mais estruturado para o pleito interno.

Para atrair a federação liderada pelo PT, os aliados de Motta reproduzem a estratégia utilizada por Arthur Lira (PP-AL) em sua reeleição. Naquela ocasião, Lira construiu uma frente ampla no centro e pressionou o governo recém-eleito a aderir à sua candidatura para garantir governabilidade. O PT busca evitar o cenário de 2015, quando lançou candidato próprio contra Eduardo Cunha e acabou derrotado na disputa.

“Vamos, evidentemente, esperar o resultado eleitoral, mas já está se lançando candidato – inclusive me comunicou isso – o deputado Sóstenes Cavalcante, do PL”, declarou o deputado federal Rogério Correia (PT-MG). “Nada contra ele, mas, por ser do PL, tem uma posição muito distinta da nossa. Em especial se o presidente Lula ganhar as eleições, não temos tranquilidade com um deputado do PL. Então, é possível, sim, que haja uma aproximação entre o PT e os membros dos demais partidos de centro. Uma composição com o Motta é uma das hipóteses colocadas pelo PT que vai ser analisada”, complementou o parlamentar petista.

Por sua vez, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), evitou antecipar os debates sobre a sucessão na mesa diretora antes do segundo turno da eleição presidencial. “Não temos clima e ambiente para discutir esse assunto antes do dia 25. Só temos um foco agora: eleger Flávio Bolsonaro”, afirmou o deputado.

Análise acadêmica e cenário no Senado Federal

Diante do novo desenho das bancadas, cientistas políticos avaliam que a disputa pelo comando da Câmara virou prioridade para a sobrevivência das legendas do centro. O avanço do PL reduziu o espaço de barganha dos grupos moderados nas comissões temáticas e na distribuição de relatorias de projetos estratégicos.

“Com bancadas mais enxutas, os partidos de centro buscam preservar o comando do Congresso Nacional para compensar a perda de força parlamentar”, explica o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB). “É uma estratégia para manter influência sobre o Orçamento, a agenda legislativa e as negociações com o próximo governo. O controle dos espaços estratégicos do Parlamento passa a ser uma questão de sobrevivência política”, conclui o pesquisador, ressalvando que a heterogeneidade interna dessas siglas impõe desafios à coesão do bloco.

Enquanto isso, a articulação para a presidência do Senado Federal apresenta um quadro mais complexo. A eleição de 19 senadores pelo PL expandirá a bancada da sigla para 28 parlamentares a partir da próxima legislatura, elevando seu peso relativo na Casa Alta. O atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), busca construir apoios no centro, na esquerda e entre senadores pragmáticos do próprio PL.

Dessa forma, a movimentação para que os partidos de centro articulem a manutenção de Hugo Motta na Câmara reflete a busca por equilíbrio institucional entre os Poderes. Os desdobramentos definitivos dependem do resultado do segundo turno das eleições presidenciais.

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