Inquérito policial aponta fraude em lotes do imunoterápico Keytruda fornecidos a hospital em São Paulo, onde análise química revelou presença de apenas água e sal no produto.
A Operação Laziosi prende três por falsificação de remédio contra o câncer nesta quinta-feira (5) após inquérito policial constatar a venda de lotes adulterados do imunoterápico Keytruda no Estado de São Paulo. A investigação revelou que o grupo criminoso comercializava frascos sem o princípio ativo pembrolizumabe, substância utilizada em tratamentos oncologicos avançados. O laudo da análise química, elaborado pelo laboratório forense da fabricante MSD e anexado ao processo judicial, confirmou que a solução recolhida continha apenas sódio e cloro. Conforme a administração do Hospital IGESP, a equipe de saúde aplicou uma dose do produto falso em um paciente internado na unidade.
A falsificação atingiu um dos medicamentos de maior custo na oncologia global, indicado para o tratamento de 19 tipos de tumores. A lista de aplicações abrange neoplasias de pulmão, rim, melanoma, estômago, esôfago, cabeça e pescoço. A indicação médica busca evitar a recidiva do tumor após intervenções cirúrgicas. Assim, como no acompanhamento do papa Leão XIV, que iniciou ciclo terapêutico após a remoção de um adenocarcinoma pulmonar de 2,5 centímetros. No mercado privado brasileiro, cada frasco do Keytruda ultrapassa o valor de R$ 20 mil, enquanto a rede pública restringe o fornecimento ao tratamento de melanoma avançado.
Laudo pericial e mecanismo de fraude nos lotes
Ademais, a suspeita sobre a irregularidade do insumo começou na própria equipe do Hospital IGESP em julho de 2024. A fabricante MSD recolheu dois frascos de 100 mg na unidade paulistana para submeter as embalagens e o conteúdo líquido a testes de perícia técnica. Os peritos constataram discrepâncias nos registros formais, visto que a caixa apresentava o lote A101547 com erro de digitação no ano de validade, enquanto o frasco exibia uma numeração inexistente no sistema oficial.
Assim, a análise forense concluiu que os criminosos falsificaram a totalidade dos componentes físicos do produto, incluindo caixa, rótulo, bula, lacres metálicos, tampa e frasco. Além disso, três testes químicos sucessivos não encontraram qualquer vestígio de pembrolizumabe ou outro composto farmacêutico ativo na amostra. A fabricante MSD reiterou no inquérito que opera como a única importadora oficial do Keytruda no país, distribuindo o insumo no mercado privado por meio de 15 empresas credenciadas.
O oncologista Stephen Stefani explica que o perfil operacional da imunoterapia facilita a ação de redes criminosas. “São drogas que geralmente têm muito pouco efeito colateral, não se observa a resposta imediata. Então, ela se torna uma droga que tem um perfil muito confortável para ser falsificada, o que é uma coisa de uma perversidade gigantesca. E, claro, o custo alto delas seduz muitos criminosos para esse caminho”, afirma o médico.
Paralelamente, o especialista alerta sobre os riscos biológicos decorrentes da manipulação de soluções sem controle sanitário. “Esses criminosos estavam tirando desses pacientes a chance de sobreviver”, declara Stefani. O médico acrescenta que, mesmo sem compostos tóxicos diretos, o manuseio inadequado pode introduzir contaminações bacterianas perigosas em pacientes com o sistema imunológico fragilizado.
Atuação biológica e judicialização no sistema de saúde
Diferente da quimioterapia tradicional, que ataca diretamente as células tumorais, o pembrolizumabe atua como um inibidor da proteína PD-1 no sistema de defesa do organismo. Tumores malignos utilizam a proteína PD-L1 como um mecanismo de bloqueio contra a reação das células imunes. Logo, o medicamento neutraliza essa barreira biológica, permitindo que o próprio corpo reconheça o tecido cancerígeno e inicie o combate às células doentes.
Por conta dessa alta eficácia clínica, o Keytruda consolidou-se como um dos produtos de maior faturamento da indústria farmacêutica internacional. A MSD registrou US$ 31,7 bilhões em vendas globais da droga em 2025, montante que representou quase metade da receita anual da empresa. No Brasil, o faturamento do medicamento cresceu 265% entre os anos de 2020 e 2024, atingindo a marca de US$ 753,7 milhões.
Entretanto, o elevado custo financeiro impõe barreiras de acesso aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). O valor anual do tratamento atinge US$ 80 mil na Alemanha e alcança US$ 208 mil nos Estados Unidos. A família da paciente Francisca Almeida, de 66 anos, recebeu orçamento de R$ 97 mil por sessão na rede privada para tratar um câncer de pulmão, recorrendo à Justiça pela segunda vez para obter a medicação.
Dessa forma, o imunoterápico lidera o volume de judicialização da saúde no território nacional, acumulando 6,7 mil ações nas Justiças estaduais e federal até abril deste ano. Para ampliar o atendimento, o governo federal anunciou parceria para a transferência da tecnologia de produção da MSD ao Instituto Butantan. A medida visa reduzir o preço final do insumo e expandir a oferta na rede pública para casos de câncer de mama, pulmão, esôfago e colo do útero, no mesmo contexto em que a Operação Laziosi prende três por falsificação de remédio contra o câncer.
Fonte:
Poliana Casemiro
G1 – Globo
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