Por Karoline Albini – UNINTER
O consumo de alimentos ultraprocessados vem crescendo de forma constante no Brasil, transformando hábitos alimentares e despertando preocupações. Segundo a classificação NOVA, utilizada pelo Guia Alimentar para a População Brasileira, os ultraprocessados são formulações industriais com pouco ou nenhum alimento in natura. Assim, são feitas a partir de ingredientes como amidos modificados, óleos hidrogenados, proteína isolada, aromatizantes, emulsificantes e outros aditivos. Ademais, sua função é melhorar sabor, cor, textura e tempo de prateleira. É exatamente essa composição, muito distante dos alimentos encontrados na natureza, que os torna nutricionalmente pobres e potencialmente prejudiciais quando consumidos com frequência.
Esses produtos industrializados, ricos em açúcares, gorduras, aditivos e ingredientes altamente modificados, tornaram-se parte significativa da rotina alimentar dos brasileiros, especialmente nas grandes cidades. Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP), estimou a participação calórica dos ultraprocessados. Em todos os 5.570 municípios brasileiros, revela que, em média, 20,2% das calorias ingeridas pela população vêm desse tipo de alimento.
Sul é o maior consumidor
As diferenças regionais de consumo são marcantes, e o Sul do país se destaca como a área mais consumidora de ultraprocessados. Logo, chega a valores que ultrapassam 30% em alguns municípios, como Florianópolis. No Paraná, a variação oscila entre 16% e 26,3%, colocando Curitiba entre as capitais com os índices mais elevados de ingestão desses produtos. A capital paranaense reflete de maneira clara os fatores que impulsionam esse padrão alimentar. Como acontece em muitos centros urbanos, o ritmo acelerado da vida cotidiana, a menor disponibilidade de tempo para cozinhar e a abundância de produtos industrializados nas prateleiras tornam os ultraprocessados a escolha mais prática para grande parte da população.
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O estudo da USP também mostra que capitais tendem a apresentar índices superiores aos de cidades menores, reforçando a influência da urbanização na alimentação moderna. Ademais, um dado que chama atenção é que o consumo costuma ser maior entre homens do que entre mulheres. Possivelmente em razão de padrões culturais, da maior frequência de refeições rápidas e do uso mais intensivo de serviços de conveniência. Essa diferença também aparece associada ao fato de que homens tendem a substituir refeições tradicionais por lanches prontos ou alimentos práticos, o que os expõe com mais frequência aos ultraprocessados.
Poder aquisitivo influência consumo
Outro aspecto avaliado é a associação entre maior renda e escolaridade e o consumo de ultraprocessados. Embora isso pareça contraintuitivo, esse padrão se explica pela maior oferta e acessibilidade desses produtos nos grandes centros, pela influência do marketing e pela ideia de modernidade e praticidade associada a eles. Ao mesmo tempo, o país enfrenta um fenômeno preocupante: enquanto os ultraprocessados se tornam mais baratos, os alimentos in natura ou minimamente processados tendem a ficar mais caros. Fator, ocasionado, especialmente após a pandemia de Covid-19. Além disso, entre 2018 e 2024, por exemplo, o preço médio dos ultraprocessados caiu cerca de 16%, enquanto vários alimentos frescos apresentaram aumento, criando um cenário em que comer de forma saudável se torna, muitas vezes, mais caro do que recorrer a produtos industrializados.
Obesidade, hipertensão e diabetes são a causa do exagero
A alta ingestão desses produtos é um importante fator de risco para o desenvolvimento de obesidade, diabetes tipo 2, hipertensão e doenças cardiovasculares. Além de estar associada a pelo menos 32 outros problemas de saúde. Logo, em uma cidade como Curitiba, assim como todas as outras capitais, onde o consumo ultrapassa um quarto das calorias ingeridas diariamente, esse quadro evidencia a necessidade urgente de ações de educação alimentar. Portanto, políticas públicas e estímulo ao acesso a alimentos frescos.
Reduzir o consumo de ultraprocessados não é apenas uma recomendação nutricional: é um passo essencial para proteger a saúde ao longo da vida. Pequenas mudanças podem fazer grande diferença: como cozinhar mais em casa, priorizar alimentos in natura, ler rótulos com atenção e diminuir gradualmente a dependência de produtos prontos. Em um ambiente urbano onde a conveniência reina, é fundamental reforçar o protagonismo da alimentação caseira e variada, incentivando escolhas mais equilibradas.
Para uma cidade que se destaca em qualidade de vida, repensar a relação com a alimentação é parte essencial do cuidado com a saúde e do futuro das próximas gerações.

Karoline Albini Schast é Nutricionista e Chef de Cozinha. Professora do Bacharelado de Nutrição UNINTER