Levantamento indica que alta taxa de engajamento no Instagram impulsionou a eleição de candidatos em 2026, com forte concentração no Partido Liberal e no Poder Legislativo.
Desempenho nas urnas e liderança da direita
As eleições de 2026 consolidaram o avanço do perfil de políticos influenciadores, que utilizaram o engajamento na rede social Instagram como engrenagem central para obter expressivas votações no país. Um estudo elaborado pela plataforma de inteligência de dados ZEENG revelou que cerca de 80% dos políticos mais influentes na plataforma garantiram mandatos eletivos. O levantamento analisou o desempenho médio dos perfis entre janeiro e junho de 2026, tomando como base a taxa de interações por publicação. Redes impulsionam vitória de políticos influenciadores ao converter tempo de tela e interações virtuais em capital eleitoral direto nas urnas.
Entre os dez nomes de maior apelo na plataforma, oito integram os quadros do Partido Liberal (PL). O deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) lidera o ranking de engajamento médio de forma isolada, após registrar mais de três milhões de votos válidos. A lista dos mais influentes inclui ainda a senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF), o deputado federal eleito Lucas Pavanato (PL-SP) e a deputada federal reeleita Erika Hilton (PSOL-SP), que obteve a quarta colocação geral e a maior votação entre as mulheres para a Câmara. Redes impulsionam vitória de políticos influenciadores também por meio do fortalecimento do partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, que reuniu 40 dos 55 nomes de direita mapeados pela pesquisa.
A metodologia aplicada pela ZEENG priorizou o engajamento médio para neutralizar eventuais picos isolados de audiência. “O engajamento médio acaba estabilizando todos os perfis analisados ao longo de um determinado período de tempo. Olhando por essa perspectiva, acabamos eliminando a volatilidade de desempenho de um determinado perfil”, explicou o CEO da ZEENG, Eduardo Prange. Ele complementou informando que o Instagram contempla melhor as diferentes bolhas da sociedade.
Conversão de interações e o efeito na bancada
A capacidade de transformar interações digitais em sufrágios reais variou de maneira acentuada entre os postulantes. O senador eleito Guilherme Derrite (PP-SP) figurou em 68º lugar em influência na rede, acumulando média de 24,5 mil interações por postagem. No entanto, consagrou-se como o candidato ao Senado mais votado em São Paulo, atingindo 13,2 milhões de votos. Em contrapartida, o deputado federal eleito Carlos Bezerra Jr. (PSD-SP) ocupou a 8ª posição em apelo digital, com média superior a 127 mil interações, mas contabilizou menos de 90 mil votos nas urnas.
Paralelamente, a disputa presidencial espelhou a assimetria observada nos indicadores das redes sociais. O candidato Flávio Bolsonaro (PL), classificado na 5ª posição do ranking de engajamento, disputará o segundo turno contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que apareceu no 11º lugar do levantamento. Essa diferença na presença digital ajudou a sustentar a margem de pouco mais de dois milhões de votos registrada entre os dois concorrentes na primeira etapa da eleição.
Além disso, a performance expressiva dos nomes do topo das redes sociais provocou alterações diretas na composição das bancadas partidárias. As votações elevadas obtidas por Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato garantiram ao PL 22 cadeiras adicionais na Câmara dos Deputados pelo mecanismo do quociente eleitoral. Somente o parlamentar mineiro acabou “puxando” 13 colegas de legenda, entre eles o deputado reeleito Paulo Bilynskyj (PL-SP) e o deputado eleito Carmelo Neto (PL-CE). Com essa dinâmica, a chamada “Bancada do Like” passou a ocupar 39 dos 513 assentos da Casa.
Dinâmica eleitoral e atuação no Legislativo
A concentração do sucesso desses perfis no Poder Legislativo decorre da própria estrutura das eleições proporcionais. Candidatos definidos como influenciadores capturaram 20,6% de todos os votos válidos destinados aos eleitos para os parlamentos estadual e federal. Dos 544 milhões de votos distribuídos em todo o país, mais de 87 milhões foram direcionados aos 83 influenciadores digitais que registraram candidatura.
O professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Camilo de Oliveira Aggio, avaliou que o funcionamento das plataformas digitais se assemelha às disputas proporcionais. “A disputa para o Legislativo costuma estar profundamente relacionada com o modo como as relações se estabelecem nas plataformas digitais: são interações profundamente segmentadas. Os candidatos não precisam conquistar um segmento heterogêneo e profundamente diversificado. Basta eles jogarem esse jogo cada vez mais tribal e que é cada vez mais natural para as plataformas digitais”, disse Aggio.
Nesse sentido, a professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFMG, Helcimara de Souza Telles, ressaltou o domínio histórico da direita. “A direita sempre conseguiu engajar mais nas redes sociais, desde o impeachment da presidente Dilma Rousseff”, afirmou a pesquisadora, observando que a ligação direta entre o indivíduo e as plataformas digitais favoreceu esse segmento.
Quociente eleitoral e regulação nas redes
Por outro lado, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) enfrentou limitações na conversão do quociente eleitoral. Embora Erika Hilton tenha obtido expressiva votação em São Paulo, o partido conseguiu alavancar apenas a eleição de Sônia Guajajara (PSOL-SP). Outros nomes da legenda, como Raul Marcelo e Juliano Medeiros, não alcançaram a exigência da cláusula de desempenho individual de 10% do quociente eleitoral.
Questionado sobre a regulamentação das campanhas digitais, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informou que a matéria está normatizada pela Resolução nº 23.755/2026. O dispositivo legal veda manifestações que ofendam a honra de candidatos ou veiculem fatos sabidamente inverídicos. Já a empresa Meta não detalhou diretrizes específicas para candidatos influenciadores, mas esclareceu em nota que desativou temporariamente a conta de anúncios de Lula por equívoco operacional de uma hora. Por fim, a atuação desse grupo já se direciona para a mobilização no segundo turno presidencial, após dados demonstrarem que redes impulsionam vitória de políticos influenciadores.
Fonte da notícia:
William Brizola, Lucas Veske, Bruno Ponceano e Francielly Barbosa
O Estado de São Paulo – Estadão